LOUVEIRA: Alberto Biaggio é enterrado com Honras Militares

Faleceu no último domingo (19), com 97 anos de idade, o Sr. Alberto Biaggio. O corpo do louveirense foi sepultado nesta segunda-feira (20), no Cemitério Municipal de LOUVEIRA, com honras militares, toque de corneta e salva de tiros. Senhor Alberto era um dos últimos ‘pracinhas’ da Força Expedicionária Brasileira e tinha cadeira de honra ao mérito militar no 12º Grupo de Artilharia de Campanha ‘GAC’ de Jundiaí.

Trazendo boas lembranças e contando um pouco da história de Alberto Biaggio, a FOLHA NOTÍCIAS reproduz a seguir uma entrevista concedida por ele, em 25 de abril de 2009, contando um pouco sobre sua passagem pelo Exército Brasileiro.

Folha Notícias – Edição 558, de 25/04/2009

‘Rocinhense’ veterano da 2ª Guerra conta a sua história

Alberto Biaggio, popular agricultor de 89 anos relata suas nostálgicas memórias sobre os tempos do maior conflito do século XX e como o combate influenciou a sua vida.

Quais efeitos um conflito armado pode ter sobre uma pessoa? A cabeça de alguém que passou por uma guerra pode ter sido protegida por um capacete mas nunca será guardada das memórias do que se viu e sentiu. Alberto Biaggio, agricultor nascido em 1920, às margens do rio Capivari, na Fazenda São Joaquim (antiga Lacerda) em VINHEDO (então Rocinha), possui uma história que caberia no roteiro de um ótimo filme como pode-se conferir a seguir. Ele não chegou a partir para a luta na Europa, mas integrou a FEB – Força Expedicionária Brasileira e defendeu o litoral do país.

“Eu tinha 21 anos e era o vigésimo primeiro da lista”
Com o ‘estouro’ da 2ª Guerra Mundial em 1939, o Brasil mesmo fora do conflito, sofria várias pressões a respeito de uma posição tanto do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) quanto dos aliados capitaneados pelos Estados Unidos. O país foi motivado a entrar na guerra principalmente após os estadunidenses emprestarem 20 milhões de dólares para a construção da Usina de Volta Redonda. Dessa forma, muitos jovens tiveram de se despedir das suas famílias para se por a lutar. Um deles foi o ‘rocinhense’ Biaggio.

“Eu tinha 21 anos e era o vigésimo primeiro da lista. Só iam 20 mas o sargento perguntou quem era casado ali e um dos nossos levantou a mão, mesmo assim eu acabei sendo selecionado”, lembrou Alberto afirmando que seus pais ficaram temerosos com a decisão, contudo seu gosto pela batalha era maior. “Se eles falassem sim ou não, eu ia defender o meu país do mesmo jeito”, garantiu com bom sotaque italiano.

Partindo o coração da namorada
Antes de partir para o exército, Biaggio teve que partir primeiro o coração da namorada: “Ela tinha 16 anos e chorou muito quando eu lhe dei a notícia. Ainda mais porque tive pouco tempo para me despedir. Voltei de trem de Jundiaí, falei com meus pais e fui correndo até a casa dela. Perguntei-lhe: ‘Você vai ficar me esperando mesmo? E se eu morrer? E se eu ficar aleijado, você vai me querer ainda?’ Mas não teve jeito, ela ficou muito triste”.

Aprendendo a atirar
Trocando o chapéu de palha pelo capacete, a roupa simples pela farda e a enxada pelo rifle, Alberto foi para o exército. “Fomos com o pelotão até Taubaté e de lá tivemos que ir a pé até a base no litoral em São Sebastião. Eu gosto de andar mas foi uma jornada de 120 quilômetros em quatro dias”, contou o agricultor. As Forças Armadas deveriam ficar de prontidão na costa para proteger o país, por isso Biaggio teve que aprender a atirar: “Eu era o artilheiro do canhão, fazia a mira e o manejo era muito perigoso com balas de 75mm”. Na espera de ir para a Europa, Alberto tinha um receio: “Se a gente fosse mandado para lutar na Itália, a minha família é de lá e estávamos lutando contra eles. Deus me livre, mas poderia acontecer de eu ter que atirar em alguém que pudesse ser meu parente”,  temeu o descendente de italiano.

Vida no litoral
Seu Biaggio teve que ficar em São Sebastião até o conflito mundial acabar, em 1945. “Gostei muito de lá, tanto que quase todo ano retorno para aquela praia a fim de passar uns dias descansando. Tinha mais soldado do que gente e não havia muito o que fazer por isso comprei uma canoa. Eu gostava do mar, ficava remando e tomava banho lá mesmo”, relembrou Alberto sobre sua temporada no litoral. “Tínhamos que ficar lá de prontidão caso fôssemos chamados para integrar à FEB na Europa”, contou. Mas a convocação não veio e o então jovem combatente foi liberado.

O abraço do reencontro
Alberto garante que pela sua veia combativa, ele ansiava lutar na guerra, mas de certa forma foi um alívio voltar para casa. E foi com muita nostalgia que Biaggio lembrou do momento do seu reencontro: “Depois de tanto tempo sem comunicação fiquei contente de ver os amigos de novo”.

Porém, o agricultor tinha o receio de que sua ex-namorada estivesse com alguém. Marrento, também não foi procurar saber. Mesmo assim, o destino se encarregou de juntá-los novamente. “Eu fui para a estação que era onde meus amigos ficavam. Foi então que ela me viu de longe, veio correndo e me abraçou para não soltar mais. Nós casamos e ficamos 52 anos juntos”, se emocionou o ex-soldado. O nome da então namorada de Alberto é Helena Carriero Biaggio, hoje em memória mas imortalizada com a identificação da rua onde o agricultor vive.

Na 2ª Guerra Mundial, o Brasil perdeu 943 vidas, mas ganhou em Alberto Biaggio uma lenda viva digna de uma história cinematográfica.

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