LOUVEIRA: Inauguração de UTI da Santa Casa não passou de ‘teatrinho fajuto’

A6-A7_Inauguração UTI Sta Casa LOU_Cred reprodução FB (12)

Assim como criança que faz malcriação, o prefeito de LOUVEIRA, Júnior Finamore, passou a semana ‘de castigo’, no gabinete. Blindado por assessores e guardas municipais, Finamore ficou sem dar a cara nas ruas, ao contrário do que vinha ocorrendo até uma semana antes, quando ainda podia – segundo o calendário eleitoral – inaugurar obras públicas.

O ‘castigo’ tinha razão de ser. Mostrando ser um péssimo ator, Nicolau Finamore Júnior havia comandado, dias antes, uma cerimônia de inauguração da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de LOUVEIRA. A ‘festinha’ fora realizada na manhã de quinta-feira, 30/6, com direito a balões coloridos espalhados pela UTI – e até a corte de fita, em cerimônia para poucos convidados. Estavam presentes, a vice-prefeita, Neusa Orestes, o secretário municipal de Saúde, José Carlos Belussi, o presidente do Conselho Municipal de Saúde, João Bosco, o provedor da Santa Casa, Alceu Steck; e a administradora do hospital, Elaine Martins. Além deles, fotógrafos de um jornal ‘ligado ao prefeito’ e de um site tidos como ‘aliados’ do prefeito; os vereadores Nilson Cruz (PSD), Luiz Rosa (PMDB), Ailton Domingues e Caetano (PTB); e cerca de uma dúzia de comissionados – todos juntos e misturados posavam para as fotos da Assessoria de Imprensa.

A reportagem da FOLHA NOTÍCIAS, no entanto, foi impedida de permanecer na inauguração. Horas mais tarde, pelo Facebook, funcionários comissionados festejavam. Júnior Finamore publicou post, no dia seguinte, comparando a qualidade da UTI da Santa Casa com a de hospitais paulistanos. Escreveu o prefeito: “Nesta semana entrou em funcionamento a primeira UTI da Santa Casa de Louveira. Implantada com recursos da Prefeitura, o espaço foi equipado com equipamentos de última geração, similares aos existente (sic) nos melhores hospitais particulares do país, como o Sírio Libanês e o Albert Einstein.”

Outro que elogiou a UTI publicamente foi o presidente da Câmara. Pelo site oficial do Legislativo, Nilson Cruz emitiu a sua opinião: “Foi um sonho ver esta UTI construída. Depois de muita luta, o sonho virou realidade. Estou muito contente em ver esta obra salvando vidas”, comentou.

FARSA DA UTI COMEÇA A RUIR

A UTI louveirense ‘de Primeiro Mundo’ começou a ‘fazer água’ três dias depois (no domingo, 3), quando fotos começaram a circular pelo WhatsApp, dando conta de que a Unidade de Terapia Intensiva inaugurada na quinta-feira estava vazia. As fotos mostravam que os equipamentos e camas (que estavam ali no dia da ‘inauguração’) haviam sido retirados na calada da noite – assim como todo o piso da UTI. Alertados, o vereador e presidente da Comissão Municipal de Saúde, Estanislau Steck, e o jornalista Julliano Gasparini foram à Santa Casa, em busca de informações. Afinal, as primeiras informações davam conta que uma parte do teto teria desabado e que o equipamento foi alugado só para as fotos de inauguração.

O problema, soube-se mais tarde, era mais embaixo – justamente no piso. No momento em que chegaram ao hospital, no entanto, ninguém conseguiu qualquer informação. Alceu Steck (o provedor da Santa Casa) parecia comandar uma espécie de ‘tropa de choque’ (montada, talvez, pelo prefeito) – e negou o acesso ao interior do hospital. Questionado a respeito da inauguração de um espaço que não existia, Alceu Steck rebateu: “Vocês é que disseram que foi uma inauguração! Se quiserem entrar, peçam permissão à Elaine”, disse à todos, se referindo à administradora Elaine Martins.

Enquanto o bate-boca acontecia, a irmã de um paciente (Ivete Demarchi) andava desconsolada pelo saguão da Santa Casa. Ela disse, com todas as letras, que o irmão (Gerson Pedro Demarchi, de 50 anos), que estava internado havia 14 dias, precisava ser transferido para uma UTI. E afirmou: “A administração da Santa Casa disse que o hospital não tem recursos para nos atender. Não tem UTI e nem tomógrafo”.

Foi necessária a intervenção dos jornalistas para que um funcionário, atento à conversa, conseguisse uma vaga no Hospital de Clínicas da Unicamp. Em menos de 40 minutos, Gerson foi transferido, depois de 14 dias à espera de uma UTI que nunca existiu. Ivete agradeceu: “Tenho certeza que conseguiram a vaga por causa de vocês”, disse.

Além deste, outro caso precisou de transferência: um funcionário público municipal sofreu um acidente de trânsito no sábado, teve fraturas e a perna dilacerada. Precisando de uma UTI, foi levado à Santa Casa. Depois, foi transferido para o Hospital São Vicente, em Jundiaí.

‘PISO APRESENTOU BOLHAS’, DIZ ELAINE

Após mais de 4 horas, Elaine Martins chegou e disse que o piso apresentara um problema (bolhas haviam surgido no piso da UTI, recém-feito), e teria de ser trocado. Foi o suficiente para que pairassem no ar algumas dúvidas: 1) ou a UTI fora inaugurada às pressas (o que fez com que o piso – que precisa de um tempo para ‘acomodação’ – mostrasse as bolhas), tendo de ser refeito; ou o espaço fora ‘montado’ apenas para que os convidados posassem para as fotos – e seria terminado nos dias seguintes.

De uma ou de outra forma, ficou evidente que a inauguração tinha sido uma farsa. Em qualquer dicionário de Língua Portuguesa, ao se consultar o verbete ‘cenografia’, a explicação que se tem é: “arte e ciência da organização do palco e do espaço teatral para uma encenação”. Foi isso: uma encenação.

Apesar do teatrinho fajuto, alguns comissionados da Prefeitura (como foi o caso de um fotógrafo) teimavam em minimizar o ‘circo’. “Não aconteceu nada no hospital, só pessoas querendo fazer um teatrinho para se promover, porque não têm credibilidade alguma”, comentou o servidor em sua página do Facebook.

A falsa inauguração logo ganhou corpo, se multiplicou pelas redes sociais e deixou evidente o quão mau ator é o prefeito Júnior Finamore. Ele, no entanto, parece não ter demonstrado sequer o pudor de brincar com uma questão tão séria como é a saúde pública – e choveram comentários e posts de críticas à farsa da UTI da Santa Casa louveirense.

Estanislau Steck, enquanto tentava arrancar alguma explicação de Alceu Steck, declarou que “estão brincando de fazer campanha em cima das pessoas”. “Foi uma UTI cenográfica, só isso”, resumiu.

A encenação (ou o trabalho), aliás, teria sido feita por uma empresa cujo proprietário é pré-candidato a vereador (assim como já concorreu nas eleições anteriores) ao lado do prefeito Júnior Finamore. Seria a Construlover Construções Ltda., cujo proprietário é Adermo dos Santos Neves, um conhecido aliado de Finamore?

A construção da UTI deixou no ar outras interrogações – e muita gente que acompanhou a ‘inauguração’ ficou pensando na iluminação e que entra por uma claraboia – e que, certamente, irá causar, pelo menos, algum desconforto nos pacientes.

INAUGURAÇÃO FAJUTA VAI PARA A TV

A farsa tomou tamanha proporção que ganhou destaque na imprensa regional. Na quarta-feira, uma equipe da TVB de Campinas esteve na Santa Casa. O jornalista Luiz Crescenzo, da emissora, tentou ‘arrancar’ alguma informação de Alceu Steck. Crescenzo também foi proibido de entrar no hospital. Lá fora, na calçada, Steck tentava se desvencilhar do repórter. Acabou obrigado a dar algumas breves declarações (o link com a reportagem pode ser visto na página do Facebook da FOLHA NOTÍCIAS).

Alceu Steck se enrolou inteiro. Primeiro, disse que não havia acontecido inauguração nenhuma (“Isso é coisa da oposição”, disse); depois, ao ser confrontado pelo repórter da emissora, que exibia uma cópia da postagem do prefeito Finamore, na página pessoal do Facebook, Alceu respondeu diferente: “Nós não inauguramos nada. Nós recebemos o prédio. A entrega da UTI nunca existiu. Esse negócio de estar pronta a UTI é tudo mentira”.

A FOLHA NOTÍCIAS tentou contato tanto com a administradora da Santa Casa, Elaine Martins, quanto com a Prefeitura, sem ser atendida. Para a TVB, Elaine Martins gravou uma declaração. Nervosa e gaguejando, Elaine afirmou que, “durante os testes técnicos, apareceram pequenos defeitos no piso”, disse que “a empresa responsável trocou o piso vinílico, após decisão tomada em conjunto”, visando o bem dos pacientes.

Já a diretora de Comunicação da Prefeitura, Gisele Floriano, declarou para a reportagem da TVB que “o prefeito foi à inauguração porque a Santa Casa disse que a obra estava pronta”.

Além da TVB, também a Rádio CBN de Campinas, a EPTV (afiliada Rede Globo) e o ‘Jornal de Jundiaí’ noticiaram o fato. Além da bolha no piso, continuou sem explicação outro fato: o de que a Santa Casa de LOUVEIRA sequer tem autorização, junto ao Ministério da Saúde, para ter a sua UTI.

A Santa Casa está inscrita, no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), órgão do Ministério da Saúde, podendo atender casos de atenção básica e de média complexidade. A última alteração cadastral foi feita em 29 de junho último. A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não está relacionada entre os serviços disponíveis pelo hospital – nem em relação aos equipamentos ou aos cinco leitos que, segundo a Prefeitura, estarão disponíveis sabe-se lá quando.

Num jornal ‘amigo do prefeito’, que circulou com data de 7 de julho, uma reportagem foi publicada sob o título “Santa Casa de LOUVEIRA faz últimos reparos antes de inaugurar a UTI”.

Ué… Mas já não havia sido inaugurada? A administração Júnior Finamore, dessa forma, respira por aparelhos, entregando obras sem término.

Não se sabe se aguentará até o momento em que a UTI estiver em condições de atendimento. Para a população ouvida pela FOLHA NOTÍCIAS, tanto no centro, como no bairro Santo Antônio, tudo não passou de um teatro, uma grande farsa sendo apresentada próximo às eleições municipais.

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