REGIÃO: A história das divisas entre as cidades de VINHEDO e LOUVEIRA, contada por quem viu acontecer

O cidadão louveirense, Alceu Steck, atual Provedor da Santa Casa de LOUVEIRA, em contato com a reportagem da FOLHA NOTÍCIAS, informou que depois de muita pesquisa conseguiu resgatar a verdadeira história sobre as divisas do município com relação a VINHEDO e Jundiaí, que hoje vem dando problemas aos moradores que residem próximos de cada demarcação. Segundo Alceu, a história que descobriu é tratada como verdadeira. “Eu não só estudei e busquei em meus arquivos, mas também tive a oportunidade de vivenciar isso, porque muitas outras hipóteses que surgiram não correspondem à verdade dos fatos, ficando mais como fruto de interesses politiqueiros nada republicanos.

LOUVEIRA E VINHEDO

Alceu Steck relata que no início do ano de 1963 tiveram início as conversações entre moradores e políticos do Distrito de LOUVEIRA que almejavam a futura emancipação, tornando a cidade um município independente de VINHEDO.  “Nesta época, todo e qualquer movimento que visasse mudança, criação ou reunião envolvendo a cidade, sempre tinha à frente o sr. Mario Raphael Chamani, que era um líder e batalhador da cidade e também era o contador do Banco Itaú. Junto a ele, estava sempre o gerente do banco, sr. João Leal, já que as reuniões aconteciam em sua sala. Vale lembrar que sr. João Leal, grande entusiasta da emancipação, costumava dar várias sugestões, mas não colocava a ‘mão na massa’ para realizá-las”, relata Alceu Steck.

“Talvez por isso, sempre era o sr. Mario quem tomava a dianteira de tudo. Este tinha uma deficiência em uma das pernas e não conseguia se locomover muito, por isso, tudo que precisava ser feito fora do Banco, como levar avisos, chamar as pessoas, já que ainda não tinha telefone, preencher as atas e tomar as assinaturas, era feito pelo cidadão Alceu Steck, ou seja, eu, encarregado de resolver essas coisas. O movimento emancipacionista crescia a olhos vistos e já tinha encomendado a um historiador de Jundiaí para que o mesmo levantasse a história da fundação da cidade. Nesse momento surge a necessidade de conseguir algum dinheiro para comprar os materiais que seriam usados em propaganda, livros, impressos, honorários do historiador, etc. Este trabalho foi designado ao padre Domingos Herculano Casarin que, comigo, visitava as chácaras pedindo alguma contribuição e, normalmente, arrecadávamos uma ou duas caixas de uva. No entanto, quem apareceu para ajudar neste trabalho foi o Frei Afonso Maria, de LOUVEIRA, que tinha uma grande facilidade de comunicação, muito diferente do padre Casarin. Com ele o trabalho do grupo ficou bem mais fácil”, reconhece Alceu Steck.

“Consultada, a população aprovou totalmente a criação do município, daí começaram as discussões com Jundiaí e VINHEDO para definir as divisas de LOUVEIRA. A princípio, o sr. Mário e o sr. Odilon Leite Ferraz ficaram encarregados dessa missão. No início das conversas, o Bairro do Traviú e o Bairro dos Fernandes pertenceriam a LOUVEIRA juntamente com a Estação Experimental, que já era considerada louveirense. Dr. Júlio Seabra Inglês de Souza, que era chefe da estação experimental, apoiou integralmente essa sugestão. No entanto, tais conversas eram tratadas sem a presença dos três municípios interessados, de forma que as coisas ficavam muito vagas. Então o sr. Odilon Leite Ferraz me convidou (Alceu Steck)  para irem juntos a São Paulo visitar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), buscando definir melhor as divisas. Como em outras vezes, sempre que se fazia necessário o contato com algum órgão governamental, o sr. Odilon Leite Ferraz previamente solicitava que alguém da família Mesquita o acompanhasse. Esta família era muito ligada a LOUVEIRA. E assim, dessa vez, quem os acompanhou foi o dr. Rui Mesquita”, revela Alceu Steck.

Segundo Alceu Steck, as reuniões no Instituto IBGE foram muito informais, fazendo com que não ficassem registradas em atas oficiais. A informalidade também era notada na falta dos outros dois municípios envolvidos, Jundiaí e VINHEDO, o que era tão importante para o andamento do processo. O tempo foi passando e nada se concretizava.

VINHEDO, por sua vez, sentindo as dificuldades de captação de água, começou a pleitear que a Fazenda Barreiro também passasse a pertencer a VINHEDO. Isto LOUVEIRA não poderia consentir, mesmo porque, a família Mesquita, proprietária da fazenda em questão, não concordava com essa divisão. Passaram então a exigir que o Bairro Vila Formosa ou Buracão, em razão do seu córrego, também ficasse com VINHEDO, alterando a divisa inicial, ou seja, não seria mais o córrego que margeava todas as chácaras. Desde o início das conversações a divisa nesta área seria o córrego do Buracão, que os antigos moradores chamavam de ‘águas do buracão’, que tinha seu início no sítio do sr. Domingos Humberto Guizalberte, que ficava em LOUVEIRA, e no lado oposto já era VINHEDO, onde se estabeleceu o Loteamento San Diego, e daí descia até encontrar a antiga estrada velha Campinas-São Paulo, hoje Rodovia Geraldo Dias, desaguando no Córrego dos ‘Pagottos’, onde logo abaixo juntava com as águas da fazenda Barreiro e em seguida o Rio Capivari”, relata Alceu Steck.

Em sua pesquisa, Alceu Steck descobriu que o marco da divisa fora colocado exatamente no Km81 + 300 m, onde se situava o sítio do sr. Orlando Pagotto, hoje de Luiz Antonio Steck. Em contato com a sra. Maria Stela Guizalberte, Alceu Steck descobriu que, em 1967, ou seja, dois anos após a emancipação, Maria Stela recebeu em seu sítio a visita do funcionário municipal de LOUVEIRA, sr. Francisco Camurci, acompanhado do engenheiro do IBGE, dr. Luiz Gonzaga, para colocar os marcos da divisa.

“O primeiro marco foi colocado na Estrada da Boiada, bem próximo ao muro do loteamento Alpes de VINHEDO, e do lado oposto o loteamento San Diego, exatamente onde existem os três pés de pinheiro, intactos até hoje, criando a divisa de LOUVEIRA com VINHEDO. Este marco foi arrancado desde a gestão Gasparini, ex-prefeito de VINHEDO. Deste ponto, descendo a mata, dá início ao córrego do buracão, indo até à margem da estrada velha Campinas-S.Paulo, hoje Rod. Geraldo Dias, local da atual disputa”, garante Alceu Steck .

“Todos os membros da família do sr. Domingos Humberto Guizalberte, principalmente a sra.  Maria Stela Guizalberte, declaram categoricamente o local da divisa. Informam ainda que no ano de 1967, lá compareceu os funcionários municipais, Francisco Camurci, acompanhado do dr. Luiz Gonzaga, engenheiro designado pelo IBGE de colocar os marcos da divisa, e assim o fizeram na presença de muitos vizinhos, ficando acertado que as terras do lado do sitio dos Guizalberte pertenceria a LOUVEIRA, e no lado oposto, à VINHEDO. No local, logo em seguida, iniciou-se a construção do Loteamento San Diego. No entanto, passados alguns anos, o ex-prefeito de  VINHEDO, sr. José Gasparini, começou a política para  tentar mudar a divisa, talvez em razão de interesses particulares e não republicamos”, entende Alceu Steck.

Mas Alceu continua a sua pesquisa e descobre que os moradores da região não concordaram com essa mudança de divisas pleiteada por VINHEDO, já que as famílias tradicionais do local (Omizolo, Guizalberte, Steck, Strabelo, Verardo, Caim, Azolim, Mota, Galo, etc.),estavam integralmente enraizados em LOUVEIRA através das escrituras, dos impostos pagos, nas compras do comercio, das farmácias, serviços de saúde, dos bancos, posto fiscal, postos de saúde e hospital, principalmente, escolas, igrejas, registro de certidões de nascimento, etc. “Tudo era em LOUVEIRA, e em vista disso, é claro, essas famílias sempre se posicionaram contrários à mudança do marco”, informou Alceu.

“No entanto, embora seus moradores nunca tivessem concordado, a Prefeitura de VINHEDO, tudo fez para manter-se como titular daquela área, já que precisava muito da água. Por muitos anos a disputa entre os municípios continuava. De um lado o prefeito Gasparini, arrancava os marcos e jogava-os a 300 ou 400 metros à frente. Em seguida vinha o prefeito Nicolau Finamore e retornava os marcos para o local correto. Essa situação repetiu-se por várias vezes e tal discórdia permanece até hoje. Quem sofre com isso são os moradores e o município de LOUVEIRA. Os moradores foram obrigados a pagar os IPTU para VINHEDO, sem que a mesma prestasse qualquer serviço referente ao valor pago, como escolas, saúde, segurança, etc. Já o município de LOUVEIRA sofre com a falta de arrecadação desse IPTU”, acredita Alceu Steck.

Alceu, com seus 82 anos, deixou o futebol para praticar natação e ainda conquistar medalhas em campeonatos. Nos intervalos da provedoria da Santa Casa, tem feito pesquisa sobre a demarcação de divisas

 

Para confirmar sua pesquisa, Alceu Steck garante que as indústrias instaladas neste local têm o alvará de funcionamento na Prefeitura de VINHEDO porque a Prefeitura de LOUVEIRA, de modo surpreendente, se recusa a aceitar que estão em área de LOUVEIRA. “Em meio a tantos conflitos, o atual prefeito de LOUVEIRA vai entregar à VINHEDO toda a área do Buracão, e isso ele tem que impedir. Não há motivos para essa mudança e é notório lembrar que o pai do atual prefeito, em seu mandato, tanto lutou para que essa pertencesse a LOUVEIRA“, enfatiza.

LOUVEIRA E JUNDIAÍ

Alceu Steck conta em sua pesquisa que a marcação das divisas com o município de Jundiaí foi um imbróglio ainda maior. ”Este poderoso município não cedeu nenhuma das três áreas que deveriam pertencer a LOUVEIRA de acordo com as tratativas acordada entre a cidade de Jundiaí e o futuro município de louveirense, já que nas conversas iniciais o Bairro do Traviú, Fernandes e Estação Experimental deveriam fazer parte de LOUVEIRA. Os três bairros desaguam no rio Capivari, e isso faz com que eles se encaixem perfeitamente no território louveirense. A divisa com o Traviú saindo do sítio do Benjamim Tomazeto, na via Anhanguera, e descendo para o bairro pelo córrego dos Fernandes até alcançar a Rodovia Geraldo Dias e a Estação Experimental, onde desembocava no Rio Capivari, seria a divisa previamente combinada. Como nada foi feito de imediato e com mudanças de prefeito, nada do anteriormente combinado prevaleceu, e com o grande poder de Jundiaí, contra um município recém-criado, pobre financeiramente, sem lideranças, tudo foi mudado com anuência do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)”, lamenta Alceu Steck.

“Descobri também que excluíram a divisa natural que era o córrego dos Fernandes e colocaram um marco no morro do Candeão (antigo morador do local,) há mais de 400 metros distante do córrego em direção à LOUVEIRA, próximo a atual fábrica de vidros Valéria, e desse marco em linha reta passando por densa mata, conhecida por ‘sitio dos franceses’, indo até a Via Anhanguera exatamente ao lado do motel Texas. Só para ilustrar, vou contar uma história conhecida por muitos, mas aqui presenciada pelo ex-gerente da estação Experimental, sr. Antônio Pinto. No ano de 1975, dia 27 de março, um amigo meu e colega na escola rural de LOUVEIRA, sr. Ivo Belli, veio a falecer eletrocutado ao lado de sua casa, exatamente no córrego que marcava a divisa de Jundiaí com LOUVEIRA. Um poste que levava energia para sua casa quebrou e caiu no córrego. O sr. Ivo, como não sabia que os fios estavam energizados, entrou no córrego e enroscou-se nos fios, o que o levou a óbito. Foram chamadas as autoridades de Jundiaí, para comparecer ao local e liberar o corpo. Quando chegaram, havia um delegado junto que, examinou o local, viu o cadáver, deu uns passos atrás e disse aos presentes familiares e vizinhos que, ele delegado, não iria mexer no cadáver, pois o madeiro com os fios estava do lado de lá do córrego e as divisas deviam ser respeitadas. Ele dizia que o Sr. Ivo faleceu em LOUVEIRA, portanto, as autoridades louveirenses eram quem deveriam cuidar do caso. Algum dos presentes não titubeou e empurrou o poste para o lado de Jundiaí e então a autoridade foi chamada de volta e, pisando duro e nervoso,  não teve outra solução a não ser concluir o trabalho para liberação do corpo. Vejam como divisas eram e como deviam ser respeitadas. É um caso muito sério que envolve até a morte”, adverte Alceu Steck.

ALCEU STECK

Além dessa pesquisa sobre as divisas de LOUVEIRA, vale lembrar que o cidadão Alceu Steck nasceu em LOUVEIRA em 10 de novembro de 1936, é casado com Celia Steck, com quem tem três filhos, sendo um dos emancipadores do município. Foi fundador do Clube Atlético Bandeirantes, do Esporte Clube Nova Estrela, da Sociedade Amigos de LOUVEIRA, da Irmandade da Santa Casa de LOUVEIRA e auxiliou na construção da Igreja de São Sebastião, do Centro Comunitário e da Casa do Paroquial, entre várias outras benfeitorias que contribuíram para o desenvolvimento do município.

Hoje, Alceu Steck, depois de jogar futebol por muitos anos no Clube Atlético Bandeirantes, participa da competição estadual de maratona aquática em águas abertas. É aposentado, depois de trabalhar na indústria cerâmica por 33 anos, e também como despachante policial por mais de 40 anos, sendo fundador do primeiro escritório de contabilidade de LOUVEIRA. Foi também vereador por dois mandatos e presidente da Câmara. Mas Alceu não para. Atualmente está construindo e desenvolvendo uma nova indústria ligada à geração de energia fotovoltaica (energia solar), e quer ver de perto como ficarão as novas tratativas das divisas entre LOUVEIRA, VINHEDO e Jundiaí, que estão sendo discutidas novamente entre as Prefeituras para que haja um consenso final, nesta ‘batalha’ que perdura há mais de 50 anos. “Espero que desta vez, os três prefeitos resolvam esta questão de divisas pelo bem da população que mora nestes locais, e pelo desenvolvimento das empresas destas três cidades”, finalizou Alceu.

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